Immer Treu

Rádio Mayrink Veiga

In Rádio Mayrink Veiga on 09/01/2010 at 15:51

Praça Mauá, Rio de Janeiro. Década de 30, auge do rádio no Brasil. Surge, em 1926, umas das mais importantes rádios da época antes da chegada da “caixa de pandora”. Campeã de audiência, a Rádio Mayrink da Veiga projetou grandes nomes da música popular brasileira e botou a boca no microfone em um Brasil prestes a cair nas garras da ditadura e repressão.

Particularmente, com duas décadas de existência, não pôde acompanhar a saga da rádio no Brasil. Talvez restam ainda alguns que vivenciaram a chegada deste veículo no País. Os relatos e livros ajudam a entender um pouco esta história.

A primeira transmissão de rádio no Brasil ocorreu em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da independência. O discurso do presidente da República, Arthur Bernardes, e a obra “O Guarani” foram transmitidas juntamente com as apresentações de Pixinguinha e os Oito Batutas. Essa transmissão ocorreu apenas para despertar a curiosidade dos brasileiros. As transmissões de rádio começaram pra valer em 1923.

A música faz parte das transmissões radiofônicas desde o princípio e em trinta anos mostrou-se parte fundamental do desenvolvimento da música popular brasileira. Os anos 20 foram especiais para o meio artístico, com a criação das gravações elétricas e o surgimento da publicidade comercial nas rádios. Um novo mercado para os músicos. Por coincidência ou não, o apogeu do rádio foi uma das melhores fases da música popular brasileira e o declínio de um foi a decadência da outra.

Dois dos músicos brasileiros, Benedito Lacerda e Waldiro Frederico Tramontano, o Canhoto do Cavaquinho, são hoje referencias para músicos e estudiosos da música popular brasileira. Estes músicos, em 1930, compunham o grupo Gente do Morro que, durante meio século, fez sua carreira na rádio. Em 1964, com o golpe militar, o Regional de Canhoto perdeu seu espaço no programa “Noites Brasileiras” na Rádio Mayrink da Veiga. Nomes como Cauby Peixoto, Ângela Maria, Max Nunes – o maior criador de humor do rádio -, Mário Lago, Renato Murce – grande revelador de calouros -, Janete Clair, Helena Sangirardi, Ary Barroso e tantos outros que seduziram o povo brasileiro através do rádio.

É também na década de 20, mais precisamente em 1924, no início das transmissões, que a rádio começou a vislumbrar a “interferência” que encontraria. Em novembro deste ano, o decreto n.° 16.657 foi assinado pelo presidente Epitácio Pessoa, aprovando o regulamento dos serviços de rádio. O decreto, dentre outras exigências, permitia apenas concessões às sociedades nacionais e transmissões em português.

A capacidade do rádio de alcançar milhares de pessoas ao mesmo tempo despertou o interesse do governo para usá-la como aliada na formação de uma unidade cultural. Não existia melhor veículo na época para falar diretamente a um País com alto índice de analfabetismo. Pelo decreto de 1924 as rádios deveriam ter fins educativos, científicos, artísticos e de benefício público.

Sem qualquer acordo ou discussão prévia, era expressamente proibido propagar notícias de caráter político sem a permissão do governo. Em caso de guerra ou qualquer tipo de confusão política o governo tinha o direito total sobre as emissoras, podendo suspender o funcionamento, utilizá-la ou cassar sua concessão. Foi neste clima amigável que a rádio no Brasil desenvolveu-se. Não precisou muito tempo para sua expansão e as primeiras polêmicas.

No governo Vargas o controle das rádios ficou nas mãos do presidente. As programações sofreram mudanças radicais. A começar pela exigência de contrato e salário fixo para os artistas que se apresentavam na rádio. As maiores rádios, entre elas a Mayrink da Veiga, recebiam verba federal. É nesta fase que os programas radiofônicos – musicais, humorísticos, radionovelas e programas jornalísticos – invadem a casa de milhares de brasileiros, já apaixonados por rádio.

Na década de ouro do rádio, anos 30, o Brasil vibra com a transmissão da Copa do Mundo da França. O Rio destaca-se como ícone do crescimento da rádio através das emissoras Tupi, Nacional e Mayrink da Veiga. A cobertura jornalística marca história na Segunda Guerra Mundial. Um fato curioso deixa claro a influência cultural da rádio carioca no País. Por muito tempo, Recife, Salvador e Fortaleza tiveram um grande aumento no número de torcedores do Flamengo, Botafogo e Vasco.

Aqueles que apostaram na decadência da rádio após a chegada da televisão erraram feio. A TV chegou ao Brasil para estar nas casas dos que tinham dinheiro para pagar os caríssimos e limitados aparelhos. Na época, os radinhos à pilha começam a fazer sucesso e as três maiores rádios do Rio já alcançavam Estados do Nordeste, Norte, Sul e Centro-Oeste com suas ondas.

Não demorou muito para a Rádio Mayrink passar por cima das exigências do governo. Brizola foi eleito deputado federal com votação histórica. Em novembro de 1963, lançou pela Rádio Mayrink da Veiga a proposta de criação dos Grupos de Onze para defender as conquistas democráticas, as reformas de base e a libertação nacional. Fez isso nas portas da ditadura, como notícia ruim o fato se espalhou assustadoramente por todos os Estados da Federação.

Os udenistas revoltados, em primeira instância aguardaram uma decisão do ministro da Justiça, Abelardo Jurema, de sobreaviso. Se nenhuma atitude fosse tomada, seria solicitada a suspensão das atividades da emissora, assim como um processo ao deputado Leonel Brizola por crime contra a segurança nacional incitando as Forças Armadas à rebelião.

No período da ditadura Brizola foi exilado mas as atividades da Rádio Mayrink continuaram. Nos altos e baixos da história brasileira, a rádio permaneceu firme, algumas “interferências” e “falhas de transmissão” sempre existiram. Mas esta rádio, como uma das maiores da fase de ouro do veículo, serviu como elemento de integração e consolidação da cultura nacional.

Texto de Ana Paula Ramos
Fonte: http://www.canaldaimprensa.com.br

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  1. Achei excelente o texto de Ana paula Dantas,assim como o blog de um modo geral.
    Gostaria muito de saber onde se encontra e com quem está o acervo da Rádio Mayrink Veiga.
    Muito obrigado,
    Jorge Mello

  2. Olá Jorge,
    Nós também gostaríamos de saber mais sobre o acervo da Rádio Mayrink Veiga. Estamos sempre pesquisando e trocando informações. Caso saiba de algo, entre em contato conosco.
    Grande abraço.
    Kátia

  3. Achei muito interessante o conteúdo do texto e do blog em geral. Estou fazendo uma pesquisa sobre o Regional do Canhoto, que foi exclusivo da Mayrink durante anos e anos, e gostaria de saber como faço para pesquisar mais profundamente sobre a história da rádio Mayrink Veiga e também se existe a possibilidade de acesso ao acervo da Mayrink. Um abraço, Iuri Bittar.

  4. Olá Iuri,
    Infelizmente não temos muitos registros sobre a Rádio Mayrink.
    As poucas informações que temos também são frutos de pesquisas, principalmente na internet.
    Não sei como podemos lhe ajudar, mas se precisar de alguma informação estamos a disposição.
    Abraços.

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